quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A utilidade de uma farsa

Recebi do amigo Álvaro Britto, o texto abaixo, que considero importante para a reflexão dos jornalistas no dia-a-dia do exercício da profissão.


Reprodução



Por Francisco Viana


O depoimento da brasileira Paula Oliveira ao Procurador Geral da Justiça é muito útil para comunicadores. No último dia 13, ela denunciou ter sido agredida por neonazistas e, além de ter tido as pernas mutiladas por cortes, teria perdido dois gêmeos devido a uma gravidez abortada. Quais as lições do caso?

A primeira delas é que tudo deve ser apurado. Como jornalista, lá pelos idos de 1974, na Bahia, me defrontei com um problema grave. Um colunista do Jornal da Bahia denunciou um médico que teria sido responsável pela morte do próprio filho. Motivo: o pai, sem saber que o paciente era o seu filho, deixou de atender um rapaz gravemente ferido num acidente somente porque ele não tinha dinheiro para pagar. O atendimento seria pelo antigo INPS. Quando soube que o jovem era seu filho, enlouqueceu. E foi internado numa clinica psiquiátrica. Bem, o fato ganhou repercussão nacional. O Jornal do Brasil abriu manchete e fez editorial contra o INPS.

Eu trabalhava na sucursal de O Globo, rival histórico do Jornal do Brasil. Por dois dias, palmilhei as clínicas da cidade, fui ao cemitério, ao necrotério, enfim, virei a cidade de ponta a cabeça. Não encontrei um único fato. Um único indício de fato. A Clínica onde o médico teria deixado de atender o filho ficava no bairro da Pituba. Peguei um mapa, marquei todas as clínicas. Visitei uma após outra. Em todas, fui recebido com um misto de tranqüilidade e indignação. Tranqüilidade, porque os médicos abriam as portas. Estavam a minha disposição para esclarecer o que fosse necessário. Indignação, porque não podiam admitir uma coisa daquelas. Um médico negar socorro a um jovem acidentado. E, pior, o seu próprio filho. Uma tragédia grega vivida no calor dos trópicos.

O Jornal do Brasil sustentou o noticiário por dois dias. A seguir, admitiu o erro. Juarez Bahia, editor do jornal, teve a grandeza de reconhecer que errou. Uma atitude que só fez honrar a ele e ao jornal. Pois o caso não existia. Era uma fraude. Dias depois, na sucursal descobrimos que o "fato" realmente "existiu". Só que se desenrolou no além, foi psicografado por um mediu e publicado numa revista espírita. O colunista do Jornal da Bahia, notório "chutador", publicou a nota como se fosse verdade. O JB, então um dos melhores jornais do país, embarcou na canoa furada. O Globo, elegantemente, nada publicou. Limitou-se a dar uma nota discreta informando que as autoridades estavam tentando localizar o médico. Depois fechou-se no mais absoluto silêncio. Agiu corretamente.

Conto essa história - que me custou muitas dores de cabeça porque eu teimava que o fato não existia e fui muito pressionado - para lembrar que é muito comum as pessoas abraçarem a primeira versão das coisas. É péssimo. É destrutivo. O drama é como dar respostas às primeiras versões sem aceitá-las. Sobretudo, quando o ambiente é receptivo ao tema. No caso de Paula, o problema de fundo é a xenofobia. No caso do suposto médico baiano, era a rejeição dedicada ao INPS e a ditadura.

Na comunicação organizacional é muito comum, por exemplo, surgir uma denúncia de corrupção e as pessoas acreditarem que a versão é sinônimo de fatos. Os casos que ilustram esse tipo de erro se sucedem todos os dias. Basta lembrar o que aconteceu com o ex-ministro Alcenir Guerra que teve sua carreira tragada por uma falsa denúncia de corrupção. A comunicação em rede amplificou o drama. Ninguém mais procura verificar as notícias. Tudo que surge é dado como verdadeiro. E a notícia ganha o mundo na sua versão original. Basta ver o filme Babel para entender o que está acontecendo. A versão virou o fato.

Comunicadores e jornalistas precisam separar o que é versão e o que é fato. O que é sensacional e o que é notícia. No caso de Paula, o governo brasileiro apressou-se em apoiá-la. Agiu certo? Agiu precipitadamente? Talvez, o correto fosse apurar o que de fato ocorreu e depois colidir com as autoridades suíças. Vivemos num mundo fragmentado. Não há como julgar, inclusive porque se o governo ficasse em silêncio seria acusado de omisso. Como agiu, foi acusado de precipitação. Falta equilíbrio para avaliar a realidade concreta. Predomina o credo da crítica pela crítica. E o fato, senhor da razão é cada vez mais esquecido.

Há múltiplas verdades, muitas fraudes, muita manipulação. O drama de tudo é a espetaculosidade do noticiário. É uma certa ingenuidade de quem lida com comunicação, também. A razão é simples: a falta de uma razão crítica. Ou se é indiferente, ou se abraça uma realidade em preto e branco. Bons e maus. Verdadeiro e falso. A má notícia deixou de existir. Tudo é crise. O dólar e as bolsas não caem, despencam. Vive-se o presente perpétuo. Não se olha para trás ou para os lados para entender a história, entender os contextos. Não se desconfia das primeiras versões. E os fatos? O ponto é que os fatos são teimosos e sempre acabam aparecendo. No caso de Paula, não se deve incorrer no erro de considerá-la uma vilã. É preciso avaliar os fatores profundos que levam uma pessoa a agir assim. Ai, sim, está a grande reportagem. A interpretação de fundo. A recusa do espetacular. A aceitação da complexidade do real.

Das lições que ficam, além do culto à verdade factual e do exercício da razão crítica, fica o alerta contra o imediatismo. Tudo vira mercadoria ¿ as notícias, as reputações, os acontecimentos. Se Paula errou, erraram também todos aqueles que acreditaram nas evidências sem verificar o que acontecia nos bastidores da aparente realidade. A falsificação foi a tônica desse triste espetáculo.

Vivemos uma cultura do imediatismo. Se age primeiro para pensar depois. O grande tribunal da opinião pública muitas vezes julga antes de verificar as provas reais. Cede-se facilmente a manipulação. O mestre Rousseau ensinava justamente o contrário do que se costuma fazer hoje em dia: pensar primeiro, agir depois. É preciso refletir sobre os antigos para melhor compreender os tempos presentes. Caso contrário, continuaremos presos à comunicação espetáculo, a confundir máscaras com o verdadeiro rosto da realidade. Ou seja, misturar neuroticamente fatos com versões. Essa é a lição maior do caso da brasileira Paula: não se vê com os olhos, se vê com os fatos.


Francisco Viana é jornalista, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: hermescomunicacao@mac.com).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

STF deve renovar liminar que suspende dispositivos da Lei de Imprensa

O Globo Online está noticiando nesta quarta-feira que o Supremo Tribunal Federal (STF) deverá prorrogar por mais um mês a liminar que suspende a aplicação de 22 dispositivos da Lei de Imprensa.

Segundo o site a proposta será levada nesta quarta ao plenário da Corte pelo relator da ação, ministro Carlos Ayres Britto. Veja a matéria completa aqui.

Veja também, aqui, como foi o debate organizado pelo site Comunique-se, no dia 6 de dezembro de 2008, na ABI, quando o deputado federal Miro teixeira defendeu a revogação completa da lei de imprensa.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Brasileiro ganha prêmio internacional de fotojornalismo


O fotógrafo brasileiro Luiz Vasconcelos ganhou o prêmio World Press Photo 2009 na categoria General News. Trata-se de uma das mais prestigiadas premiações de fotografia do mundo.

Vasconcelos venceu com a imagem chamada Índio perde guerra, que retrata uma mulher tentando evitar o despejo forçado pela polícia de Manaus. A foto premiada foi publicada originalmente no jornal A Crítica, de Manaus (AM).

Além de Vasconcelos, outros dois brasileiros foram reconhecidos pelo prêmio. Eraldo Perez, da agência Associated Press, recebeu menção honrosa na categoria “Cotidiano” por uma foto que mostra pessoas em volta do corpo de Thiago Franklino Lima, na favela do Coque, no Recife. Já André Vieira, da “Focus Photo und Presse Agentur”, ficou em terceiro lugar na categoria “Artes e Entretenimento” por um registro do estilista angolano Xhunos, feita em Luanda.

O fotógrafo norte-americano Anthony Suau foi o grande vencedor com a imagem que mostra um policial fazendo uma inspeção em uma casa de Cleveland, após os proprietários serem despejados, a foto (abaixo) faz parte de uma reportagem publicada em março de 2008 pela revista Time.

A competição recebeu este ano o número recorde de 5019 candidatos, de mais de 125 países – 12,5% a mais que o ano passado. Veja aqui a galeria de fotos premiadas no World Press 2009.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Ibama proíbe pesca no Rio Paraíba do Sul até fim de maio

O último desastre ambiental causado no rio Paraíba do Sul continua provocando dificuldades à população, particularmente aos pescadores da região Norte Fluminense. A Agência Brasil noticiou em seu site, nesta segunda-feira (2), a decisão do Ibama de proibir a pesca em toda a bacia hidrográfica do rio, até o dia 31 de maio. Confira a matéria abaixo.

Thaís Leitão Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) determinou a proibição da pesca até o dia 31 de maio no Rio Paraíba do Sul, interior do estado do Rio de Janeiro. De acordo com a Instrução Normativa n.º 2, de 30 de janeiro, publicada na edição de hoje (2) do Diário Oficial da União, a restrição se estende a toda a bacia hidrográfica do Paraíba do Sul, desde o município de Resende até a sua foz, na cidade de São João da Barra.

Em novembro do ano passado, testes realizados no local verificaram que a água havia sido contaminada por um vazamento de pesticida, por causa de uma falha no descarregamento do produto em uma indústria química, no município de Resende, Sul Fluminense.

Cerca de 7,5 mil litros do produto escoaram para o Rio Pirapetinga e, posteriormente, para o Paraíba do Sul, prejudicando o abastecimento de água e provocando a mortandade de grande quantidade de peixes em diversos municípios da região, como Porto Real, Barra Mansa e Volta Redonda.

Segundo o analista ambiental do Ibama Frederico Valle, a medida foi tomada para permitir a recuperação dos estoques de fauna e flora aquáticas. Desde novembro do ano passado, a pesca não vinha sendo realizada na região em função do período de defeso – reprodução – que vai até o fim deste mês.

“Após diversos testes realizados no Paraíba do Sul, foi determinada a proibição para garantir a recuperação dos estoques pesqueiros, que foram bastante afetados com o acidente, e evitar uma possível contaminação dos consumidores. É preciso ter essa precaução até que haja novos testes e se verifique novamente o grau de contaminação”, destacou.

Ainda de acordo com o documento do Instituto, serão realizadas ações de monitoramento das condições ambientais e da situação dos recursos pesqueiros. Se as equipes verificarem necessidade, o prazo para liberação da atividade poderá ser prorrogado.

O pescador William da Silva, presidente da colônia Z-2, em São João da Barra, um dos municípios atingidos pela contaminação da água, cobra orientação mais clara dos órgãos ambientais.

“Nós queríamos que eles visitassem mais as nossas colônias e nos informassem sobre essas análises que estão sendo feitas [na água] e os resultados disso tudo. A gente só vê que estão sendo feitas reuniões entre eles, mas não com a gente”, reclamou.

De acordo com ele, cerca de 900 pescadores vivem da pesca na região.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Lula afirma que vai realizar Conferência Nacional de Comunicação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou hoje, em Belém, a realização da I Conferência Nacional de Comunicação. Em entrevista coletiva após sua participação em atividades relacionadas ao Fórum Social Mundial o presidente afirmou que o governo vai realizar a conferência.

“O que nós vamos fazer agora é uma grande conferência sobre comunicação no Brasil”, disse Lula, em resposta a pergunta sobre políticas na área de comunicação.

O presidente, entretanto, não falou em datas. Mais cedo, no entanto, o ministro Luiz Dulci, da Secretaria-Geral da Presidência, havia citado a conferência de comunicação entre as que serão realizadas este ano pelo governo federal. A Secretaria-Geral é responsável pela coordenação dos espaços de participação direta do governo federal, inclusive as diversas conferências da área social.

A realização da I Conferência Nacional de Comunicação é uma reivindicação de diversas organizações e movimentos sociais. Há cerca de um ano e meio, um grupo de entidades e mais duas comissões permanentes da Câmara dos Deputados (a de Direitos Humanos e Minorias – CDHM – e a de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática – CCTCI) criaram a Comissão Pró-Conferência Nacional de Comunicação. No início de dezembro, a comissão apresentou ao Executivo a sua proposta para a convocação e organização do processo.

Fonte: Cristina Charão - Observatório do Direito à Comunicação.

Sindicato do Rio vai discutir com patrões adicional para jornalista multimídia

As tecnologias e o processo de produção mudaram. Só não mudou a mentalidade dos patrões que continuam explorando de forma acintosa o trabalho dos jornalistas. Eles ignoram os direitos autorais dos profissionais que produzem suas reportagens para um determinado veículo, mas têm seus textos veiculados em outras mídias do mesmo grupo.

É visando corrigir essa distorção que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro decidiu inserir na pauta de reivindicações deste ano, o pagamento de um adicional de 20% para os profissionais que produzem conteúdo para mais de uma mídia.

Bom exemplo, que o nosso sindicato, dos jornalistas do Estado do Rio de Janeiro deveria seguir. No interior essa prática também acontece com prejuízo ainda maior para os profissionais da região, que ao contrário dos colegas da capital, recebem salários humilhantes.

Adianto que este assunto, além de vários outros de interesse dos jornalistas do interior do estado, serão discutidos na primeira reunião da nova diretoria do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, no dia 7 de fevereiro, em Niterói.